A festa que o Brasil não viu

As Paralimpíadas mal começaram e já vieram com polêmicas. De princípio, a nomenclatura. O “O” de Olimpíadas foi retirado dando origem ao nome que utilizamos agora. Apesar da mudança ter sido realizada em 2011, ainda tivemos um estranhamento nessa edição. Se você clicar aqui vai saber direitinho as razões dessa alteração. Partimos então para a próxima polêmica: a maioria dos ingressos não foram vendidos.

Afim de resolver este problema diversos blogs, páginas e jornais iniciaram uma série de postagens e matérias relatando o fato e convocando o grande público para o evento. Buscando ampliar o impacto dessa divulgação, nosso comitê resolveu fazer uma controversa campanha publicitária com os embaixadores, Cléo Pires e Paulinho Vilhena, simulando possuírem alguma deficiência para reforçar o conceito do mote “Somos todos paralimpícos”.

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Na imagem, Paulinho está de braços cruzados usando uma prótese em uma das pernas. Ao seu lado, Cléo aparece sem um braço enquanto o outro está na cintura. Ambos estão em pé. (crédito divulgação)

No mesmo dia inúmeras pessoas com e sem deficiência expressaram sua indignação com as peças. Essa autora que vos escreve também se posicionou contra a ideia por considerar demasiado importante a representatividade de indivíduos com deficiência nas grandes mídias. É claro que também houveram reações positivas a campanha e estas atribuíram o aumento das vendas ao burburinho causado pela ação.

Abertura

Dia 7 de setembro, dia da Independência.

Interessante falar em independência quando se trata da deficiência. Depender dos outros para realizar atividades que geralmente a grande maioria não precisaria de apoio costuma ser o ponto central para definir se alguém é ou não independente. Contudo para a pessoa com deficiência esse conceito não abrange a sua realidade, pois ainda que não consiga desempenhar algumas funções como outros, existe a possibilidade de adaptar estas a sua condição, além de exercer a autonomia de suas vontades. Exemplo disso é a prática de esportes e a participação em competições como a Paralimpíada.

Se por um lado o comitê pecou na divulgação do evento, por outro nos presenteou com uma abertura de encher os olhos e emocionar tanto quanto nas Olimpíadas. Foram tantos momentos marcantes que a escolha de um favorito torna-se praticamente impossível.

No twitter várias pessoas comentavam empolgadas e impressionadas com a beleza de algumas apresentações, porém nem todos conseguiram assistir. Não seria por falta de vontade, pois muitos demonstravam interesse em acompanhar o evento. Tampouco estariam fora do alcance da televisão, já que estavam em suas casas acompanhando a programação da rede aberta. A verdadeira causa desse estranhamento foi simples e pontual: nenhuma grande emissora aberta transmitiu a abertura.  

“Ninguém quer ver”

Muitas foram as explicações para esse lapso televisivo, porém a que mais me intrigou foi a que defendia a ausência de público que justificasse a compra de patrocínio e, conseguinte, interrupção da programação normal.

Charge com um título escrito "Festa de abertura da Paralimpíadas" abaixo dele um desenho de uma mulher segurando na cadeira de rodas de um menino que está segurando uma bandeira do Brasil em frente a uma televisão com o logo da Globo
Charge com um título escrito “Festa de abertura da Paralimpíadas” abaixo dele um desenho de uma mulher segurando na cadeira de rodas de um menino que está segurando uma bandeira do Brasil em frente a uma televisão com o logo da Globo

Acreditou-se que não haveriam pessoas interessadas em acompanhar os jogos, pois não seriam tão emocionantes e envolventes quanto as Olimpíadas. Ocorre que essa visão capacitista sobre o evento foi contestada com os comentários indignados nas redes sociais.

O esporte paralimpíco vem ganhando destaque e recebendo incentivos do governo por meio das leis de Incentivo ao Esporte, Lei Piva e apoio dos governos estaduais e patrocinadores apresentando um salto de  R$ 77 milhões para R$ 165 milhões, somente no último ano olímpico, segundo o Movimento Down.

Além disso, o governo obriga empresas a terem uma porcentagem de pessoas com deficiência entre os seus funcionários que se tornariam potenciais consumidores do esporte paralimpíco.

Antes, o Comitê Paralímpicos Brasileiro (CPB) comprava os direitos de transmissão e dava gratuitamente para as emissoras de TV, porque interessava a ele divulgar o esporte adaptado.

Em 2012 acreditou que isso não seria necessário, pois pela primeira vez uma emissora havia comprado os direitos.

Os Jogos Paralímpicos de Londres, por sinal, foram transmitidos aqui diretamente para uma emissora de canal fechado — o SporTV que transmitiu pela primeira vez as competições ao vivo e junto com a TV Brasil foi a responsável pela transmissão da abertura neste ano.

7×1 diário

Existe um ponto positivo nessa história toda. Pela primeira vez o Brasil inteiro se deu conta do capacitismo. A sociedade se olhou no espelho e viu refletido todo o preconceito e descaso que realizam diariamente com as pessoas com deficiência. Vimos também a importância da representatividade e a necessidade de lutarmos por ela.

Não basta novelas com atores fingindo ter deficiência, não nos interessa aparecer em programas para expor nossas misérias e causar comoção geral. Não queremos curtidas em imagens por “sermos exemplos de superação” unicamente por estampar um sorriso em uma foto casual. Nada dessas aparições nos interessam, queremos apenas nos ver. Ligar a TV e ver um ator com deficiência desempenhar um ótimo papel, tal como foi em Breaking Bad. Ou abrir uma revista e ver uma linda modelo com deficiência e sentir-se igual pela similaridade dos diagnósticos.

Quanto mais nossa realidade for exposta, mais ela deixará de ser “estranha” e se tornará comum para todos aqueles que não possuem contato diário com a deficiência. Quem sabe assim não conseguiremos uma mudança real? Vimos uma escada virar rampa, seria ótimo ver o preconceito se transformar em respeito.

 

Fonte dos dados: http://www.usp.br/aun/exibir?id=6102
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