Se tu sentisse

Como este é oficialmente o primeiro post de 2016 me darei o direito de dizer: feliz ano novo para vocês. Sei que estamos no décimo dia de janeiro e muita coisa já aconteceu desde então, mas digamos que sou dessas que apreciam algumas “formalidades”. Assim sendo: saúde, paz, amor e tudo de bom para todos vocês! 😉 Vamos ao que interessa, pois.

Talvez não seja de conhecimento da maioria de vocês, porém sou uma pessoa que gosta de ver seriados e filmes. Graças a Netflix posso assistir vários episódios no mesmo dia e passar horas a fio desfrutando da minha doce companhia. Aliás, desde que fiz as pazes com minha presença dificilmente tenho sentido a falta de estar com outro alguém. (aqui leia-se homem porque adoro sair com meus amigos) 

Em uma dessas tardes, nas minhas pausas para o almoço resolvi assistir ao seriado “sense8”. Já tinha recebido muitas indicações e vi alguns comentários entusiasmados na internet, todavia mesmo assim ainda não tinha despertado meu interesse real em vê-lo. Comecei a ver o primeiro episódio despretenciosamente, deixando-me levar pela história e ver se iria ou não continuar assistindo. Sabem o que aconteceu? Três episódios de 50 minutos de uma só vez!

sense-8 A história 

Tentarei resumir sem dar spoiler (contar o final ou partes importantes da história) para vocês entenderem do que se trata. “Sense8” mostra a vida de uma “espécie” diferente de seres humanos, os chamados sensates, o qual possuem uma conexão sensorial entre cada membro de um grupo composto por 8 deles. São pessoas diferentes, em lugares totalmente diferentes, sem nenhuma ligação familiar ou algo parecido, mas que após um evento passam a experimentar os sentimentos do outro.

No começo essa conexão fica bem confusa para o telespectador, contudo no avançar dos episódios vamos nos acostumando e entendendo como ela funciona. Vou parar por aqui porque não quero estragar a surpresa de ninguém, se puderem assistam. 🙂

À medida que fui assistindo a série e observando o modo como eles lidavam com essa conexão, passei a refletir em como seria nossas vidas caso isso fosse real. Antes que pensem o quão envolvida e fora do meu normal eu possa estar, houveram falas abordando essa possibilidade. Ou melhor, a ausência dessa conexão e suas consequências no dia a dia. Um dos personagens, chamado Jonas, disse algo semelhante a isso:

“Quando você não possui essa conexão fica mais fácil matar. É mais fácil porque você não sente a dor do outro.”

Esse momento me fez pensar em tanta coisa que não fazem ideia. Ao terminar a série precisei de um tempo para absorver tudo, digo sem exagero, pois de fato é uma daquelas histórias que te pegam pela mão e quando percebe já está todo revirado por ela.

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Pensei em como seria ser um daqueles sensates, claro que pensamos na parte divertida dessa “realidade”. Um sensate bom em economia, outro artista ou um excelente hacker seriam bem vindos, mas aí lembrei de um detalhe: eu seria a sensate deles.

Ah se tu sentisse…

Quando me dei conta disso, imediatamente a fala do Jonas me veio a memória e várias situações foram descortinadas e passaram a adquirir mais sentido no final das contas.

Meu sensate teria não só contato com minhas ideias loucas, mas sentiria na pele minhas dificuldades físicas: dores, perda muscular, enrijecimento de alguns membros, falta de força e por aí vai. Sentiria a minha força para lidar com algumas realidades, porém minha insegurança com outras. Talvez sentindo essas coisas, meu sensate se tornaria alguém capaz de compreender a importância da acessibilidade na vida das pessoas com deficiência ou veria que determinados pensamentos são capacitistas e devem ser abolidos.

Ele saberia porque sentiria o peso disso, contudo sabemos que sensates não existem. Não temos essa conexão, em verdade não temos várias conexões.

Estamos sempre falando por aí sobre a dificuldade da pessoa com deficiência em inserir na sociedade e ser vista como um indivíduo com autonomia, independência (seja ela qual for e como for) tendo seus direitos respeitados como deve ser. Certamente muitas pessoas já viram alguém com deficiência passando por constrangimento em transportes públicos, escolas, estabelecimentos ou sabem de alguém que viu algo semelhante. O que fica difícil de entender é porque não é suficiente para mudar?

Talvez precisemos de alguém ou alguma situação que fosse capaz de reconectar as pessoas. Antes precisamos descobrir onde foi que cortaram a conexão e o que precisamos fazer para restaurar essa rede. Pensando bem, posso estar errada em acreditar que sensates não podem ser reais, uma vez que para ser um não é necessário surgir no mesmo ambiente, apenas conectar-se com suas emoções. Porque no final é tudo uma questão de se colocar no lugar do outro.

P.S.: Esse post não é patrocinado. 

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